O Parto

Enfim, Maria Luisa mamou bem, dormiu e cá estou eu tentando achar e medir palavras sinceras e que consigam humildemente descrever um momento tão surreal como o tal do parto. Principalmente quando as coisas não acontecem do jeito que planejamos ou sonhamos.
Queria muito estar contando pra vocês sobre meu parto natural em uma banheira de água morna, com muita dor, esforço, luz baixa e o pai cortando o cordão umbilical, com a primeira mamada logo ali, e com aquela última contração pra expelir a placenta. Mas não.
Antes de virmos ao mundo planejamos toda nossa vida lá no céu, e o que planejei desencarnada não foi a mesma coisa que planejei encarnada, infelizmente. Mas é bom, foi muito bom ver que as coisas podem dar certo, mesmo quando não seguem um roteiro.

Comecemos pelo começo.
Madrugada de domingo pra segunda-feira. Senti uma pressão e fui ao banheiro, minha calcinha estava molhada, então resolvi colocar aquele absorvente diário pra ver se não era líquido amniótico ou tampão. Voltei a dormir, e acordei com muitas dores e a barriga durinha. Primeiro pensamento foi: chegou a hora. Fui ao banheiro tomar um banho e quando abaixei as calças quase cai dura, comecei a chorar, o absorvente estava bem rosado. Sai do banheiro de toalha, vim ao quarto e acordei o Mauro falando "bora pra casa de parto, tô sangrando". Ele, todo sonolento, olhou a calcinha e ficou aqui perdido com seus pensamentos enquanto eu tomava um bom banho de água quente pra aliviar toda a tensão e ansiedade.
Chegando a casa de parto fui atendida como emergência, claro que esperei um pouco e tal. Na consulta em si não aconteceu absolutamente nada! NA-DA! A enfermeira que me atendeu me tranquilizou, mandou eu deitar, pediu pra ver meu absorvente e falou, simplesmente, que era lubrificação, e que eu ia parir naquela semana com certeza (mal sabia ela que seria no dia seguinte).
Fiquei um pouco chocada. Não teve um exame de toque, nem nada. Mas ela me deu um "trunfo". Um pedido de ultrassonografia. E lá fomos nós pra casa. Eu mais tranquila, como sempre, confiando no que a enfermeira falou. Mauro também, confiante.
Chegando em casa tentei a todo custo agendar o exame pra'quele dia. E depois de ligar pra todos os laboratórios, tentar pela internet e nada conseguir, fiz o que qualquer mãe desesperada faria: apelei pra promessas e fui na cara e na coragem ligar pro plano de saúde. Aleguei que estava perdendo líquido e que nenhum hospital por aqui tinha ultra na emergência. Então consegui uma marcação meio longe de casa, no Pasteur do Rio Shopping.
Depois de trânsito e muita expectativa no carro, esperamos um cadinho até sermos chamados. Pra minha surpresa o exame só ficaria pronto muitos dias depois, então conversei com o médico. Ele falou que tentaria imprimir pra mim, pelo menos, as imagens, e faria um laudo a mão. Mas não tinha impressora no estabelecimento (que era muito arrumado e chique, diga-se de passagem). Ele me tranquilizou, disse que o líquido estava super normal, e que não tinha nada de errado com a Malu. De acordo com ele "ela estava ótima". Mostrou até o rostinho dela.
Claro, fiquei bem mais tranquila, acreditei no médico, assim como acreditei na enfermeira. Mas como mãe, bem lá no fundo, algo me dizia que estava chegando a hora, e que nada seria como o planejado por mim em plano terreno. Chegando em casa, fomos almoçar. E o Thiago, um primo do meu marido, pediu pra ver meu absorvente. Realmente, não tinha cheiro de água sanitária, e eu acho que essa foi a maior "mentira" da minha gestação. Nunca senti o tal cheiro forte. Ou melhor, senti o cheiro forte, mas nunca de água sanitária.
Thiago falou "acho que sua bolsa teve um rompimento alto, amanhã uma amiga minha vai estar de plantão no Pasteur, vamos lá na emergência pra ela te avaliar". Ok, ansiedade bateu mais forte ainda. Meu único pensamento era "amanhã minha filha nasce". Não quis compartilhar esse pensamento com ninguém, porque tinha medo de não acontecer, mas lá dentro eu já sabia que seria da forma que foi.

Continuei com os absorventes BEM molhados (encharcados mesmo!). Acordamos bem cedo, e minhas contrações estavam com intervalos bem pequenos, porém não era trabalho de parto ativo, nem tinha como ser.
Chegando ao hospital, bem cedo, logo fomos atendidos. Mauro ficou na salinha de espera, enquanto eu entrava na ala obstétrica com o Thiago. Na consulta fizemos o toque (putaquepariu, como dói!), meu colo estava fechado, grosso e posterior. Nem se eu quisesse estaria em TP ativo. Realmente tinha uma gosma saindo de mim, que não era líquido amniótico, e nem tampão.
A médica me encaminhou pra ultrassonografia. E adivinhem? Bem, só tinha uma bolsa mínima de água. Ok, minha cesariana seria naquele dia. Fizeram um exame que chamam de cardiotoco, Malu estava em sofrimento, menos de 100 bpm. Decidiram que minha cesariana seria naquele instante! E nem a mala maternidade eu tinha levado!
Mandaram eu ficar nua, me colocaram uma fralda geriátrica. Deitada na maca, me furaram pra colocar o acesso e o soro. E lá estava eu, pronta pra subir pro centro cirúrgico. Thiago entrou comigo, mesmo sem ter direito a um acompanhante (por ser emergência), ele conseguiu entrar como parte da equipe de enfermeiros.

No elevador fiquei bem nervosa, comecei a orar e pedir aos amigos do plano espiritual que me acalmassem, e que fosse feita a vontade de Deus. Pedi muito pela minha filha, que ela estivesse bem, pouco me importava o que fosse acontecer comigo.
A anestesista conversou muito comigo, muito gente boa. Me virou de lado e começou todo o procedimento da ráqui. Primeiro uma anestesia para a pele, depois outra mais funda, pra que eu não sentisse tanto a ráqui. E por último ela, a mais dolorosa. Senti tudo queimando.
Fui virada, ela passou a sonda, e não senti mais nada. Sentia tudo formigando, na verdade. Até que a ráqui subiu. Não sentia nada do pescoço pra baixo. Comecei a ficar nervosa, enjoada, tonta, mal conseguia falar.
Os médicos me deram "oi", e começou. Foi meio difícil da Malu nascer. Tiveram que empurrar e puxar de novo. Ela tava super encaixada e lá em baixo (ah quem me dera um parto normal). Menos de 5 minutos depois o choro (e que choro). Malu nasceu. Eram 12:41, do dia 16/09/2014. A pediatra ficou encantada com o tamanho das bochechas, e o choro que não aquietava. Ela nasceu com 3,440kg e 51cm. Bem grandinha.
O choro não parou nem quando ficou perto de mim! Toda suja. Nunca vou esquecer o cheirinho dela... Aquele momento eu não era mais eu, não era mais a Jéssica. Era mãe.. Era a mãe da Maria Luisa.
Logo colocaram a pulseirinha nela e a levaram embora. Todos conversavam na sala, e a anestesista me perguntava tudo. Enquanto isso os médicos faziam seu trabalho fechando minha barriga. E pronto. A sala ficou vazia. Me mandaram pra uma enfermaria enquanto o quarto não ficava pronto.
Lá conheci Nicole, mamãe do Lorenzo. Essa foi guerreira. Quem sabe em outro post não conto a história dela. Afinal, eu não sabia, mas ela seria minha companheira de quarto por 2 longos dias.

Enfim chegou minha vez de descer. Pois é, não fiquei na área da maternidade, o que não foi nada confortável. Mas o importante foi chegar no quarto. Na saída da ala cirúrgica me esperavam firmes sorrindo e chorando: Mauro, Aline, Letícia e Bertassone.E descemos, eu e o maqueiro, enquanto eles admiravam a Malu no berçário.
No quarto estavam minha mãe, sogra e alguns amigos. Fiquei contente de ter tanta gente. Me senti menos nervosa. Logo levaram a Malu e tentaram me ensinar a amamentar (que coisa dolorida e difícil rs). Meu leite não desceu, afinal, não entrei em TP. Só colostro. E eu não tinha bico, então já imaginam como foi dolorido né? Malu berrava de fome, e não conseguia mamar por falta do bico.
Tentamos muitos bicos de silicone, só o da MAM funcionou, mas isso eu só consegui comprar depois da minha alta.





Bem, pegar minha filha nos braços, mesmo que molenga, foi incrível. Nunca imaginei que um ser humano pudesse amar tanto. Era um sentimento que não cabia em mim. Aqueles olhinhos abertos me olhando, como quem diz "oi mãe". Eu realmente estava completa naquele momento.

Foram duas noites em claro, Malu tinha muita fome e eu não conseguia amamentar. Ela tomou muito suplemento... o que eu não gostei nem um pouco. Mas era a única forma dela descansar e relaxar. Eu já estava super sem graça, porque o Lorenzo, filho da Nicole - minha colega de quarto, dormia a noite inteira, e a Malu ficando roxa de tanto berrar e chorar. Ok, ele não resmungava, mas mesmo assim né... rs

Bem, na hora da alta foi o pior. Chorei MUITO! Na quinta-feira, íamos ter alta. Digo isso porque no exame de sangue da Maria Luisa foi detectado uma infecção. E a pediatra (pra me deixar tranquila) disse que só não levaria ela pra uti neonatal porque estava lotada, e que o único remédio pra ela melhorar era meu leite e meus anticorpos. (Oi? Cuma? Eu não estava conseguindo amamentar!)
Então, minha digníssima irmã, Aline, me deu todo apoio do mundo. Ali, juntas, nós três, fomos muito fortes e consegui colocar a Malu no peito algumas vezes. A pega tava errada, tudo funcionando muito mal, porém o mais importante aconteceu, ela conseguiu mamar o suficiente pra ter alta na sexta-feira.
Foi uma espera sem fim. Eu, Mauro e Aline. Levaram Maria Luisa bem cedinho pra ala pediátrica do hospital para exames. E só trouxeram ela depois do almoço!
E só conseguimos a alta porque foi uma paciente pro nosso quarto que estava tossindo muito, e Mauro foi reclamar que tinha uma recém nascida sem vacinas no mesmo quarto fechado. Ai pegaram o exame e nos deram alta.

Foi ai que o mais estranho de tudo aconteceu. Umas semanas antes de ter a Malu fui em uma sessão com o Preto Velho (sim, eu já estava apelando pra tudo que é religião! rs), e lá ele falou que Malu nasceria num dia muito bom, e que seria em Setembro. Até ai, tudo certo. E antes de saber que estava grávida, meu notebook estava travado na escrivaninha, e do nada ele acendeu sozinho (e ele só sai do modo de espera com alguém mexendo), e lá estava a hora: 19:09. Eu sempre achei que Malu nasceria nesse dia.
Ai que aconteceu o "algo estranho" da história. Estávamos na fila do elevador, e a enfermeira que nos levou até a porta foi a mesma que estava no meu parto. Ela comentou que o dia que a Malu nasceu era uma correria que só, muito bebê nascendo (e nem era virada de lua, heim), muitas mães desesperadas e tal, e que aquele dia era um dia muito bom (foca no preto velho!). Um senhor muito doido se aproximou de nós, e ficou encantado com a Malu. E no elevador ele comentou: - Que dia é hoje heim? É... dia DEZENOVE DO NOVE! Dia bom! (FOCA NO NOTEBOOK MINHA GENTE). Pirei, eu e Mauro nos olhamos e na hora pensamos na mesma coisa!

Coincidência? Ou não? Enfim, o importante é que Malu está aqui, linda, saudável, chorona e muito manhosa. Por falar em chorona.. tenho que ir! Pela milésima vez devo parar de escrever pra dar atenção a minha pequena princesa.

Espero que gostem do relato. É muito bom poder compartilhar tantas coisas com vocês! :)

Um comentário:

  1. Olha Amiga gostei muito do seu relato de parto, maduro, conciso e cheio de emoção.
    Parabéns. Beijos

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